sexta-feira, 19 de março de 2010

oferenda musical

noite calma
sem urgências
ou frêmitos

o mar
um lago

sete barcos descansam
na púrpura etílica
movediça

(na orla, boia o traficante local,
espancado)

partidas as oferendas
noutros cem
de papel,
suspensos um segundo
logo dissolvidos,

despetalas:

um dente,
um peixe

fisionomia

I

manhã tarde e noite,
o sol caminha em cheio
o rosto dos passantes

(é o que se vê sob o sol)

e queima devagar
o que fala no dia
em todos e em ninguém

(é o que se ouve dizer)

II

ninguém fala
ou vê claramente

vemos,
ouvimos dizer:

todos apenas caminham

III

um rosto (assim
em repouso) ainda
não é um rosto

é apenas (como
na fotografia) a luz
onde ela, aos poucos,
diz-se menos
subúrbio por sobre
a cabeça
branca,
passada
a longa espera
na fila

do mercado

um sorriso
sem dentes
,
para a caixa
registradora

tomates
verdes, sopa,
maria mole

a mão, pesada
e roxa, amassa
o que queria
doce
por onde se reparte claro
e escuro, nada se discerne
entre os vezos dos dedos

correm apenas gotas
de visco, água morta
sob as gretas

mesmo que apoiadas
as cabeças (e o tempo)
por sobre a ondulada
coluna de ar

e leves e envenenados
os ouvidos, girassóis,
desfolhem-se somente
noutras novas

sempiternas
cerrações